A data 10 de setembro foi escolhida para sinalizar o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, com ações por todo o mundo para divulgar a causa. O suicídio pode ser entendido como um ato executado conscientemente pelo indivíduo com a intenção de causar a própria morte. No Brasil, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), junto do Conselho Federal de Medicina (CFM), organizam todos os anos neste mês a campanha Setembro Amarelo. 

A iniciativa tem como objetivo conscientizar a população para prevenir e, consequentemente, diminuir o número de casos no país. Para esse fim, é necessário, além do suporte profissional, superar estigmas e preconceitos acerca do tema. Todos os anos, são registrados cerca de 12 mil suicídios no Brasil, número que segue aumentando, principalmente entre jovens de 15 a 25 anos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo menos 90% dos suicídios podem ser prevenidos. 

Para a psicóloga Celene Lobato, a campanha Setembro Amarelo é extremamente importante porque traz informações de como lidar com a situação, possíveis causas e as consequências. Também instruindo pais e familiares em relação aos principais sinais de alguém sofrendo com depressão. “É essencial que os responsáveis informem-se acerca deste assunto e conversem abertamente sobre problemas mentais com os filhos. Isso facilita todo o processo de tratamento e ainda auxilia na prevenção de transtornos”, explica Celene.

A partir da conscientização, as pessoas que convivem com indivíduos exibindo comportamentos depressivos ou suicidas (pensamentos, planos e a tentativa de suicídio) ficam informadas e com mais segurança. “Falar sobre isso, dividir as dores e obter informações é muito importante para a prevenção do suicídio. O sofrimento de uma pessoa que tentou algo parecido não é apenas dela, estão envolvidas diversas dores de indivíduos próximos que foram tomadas para si”, esclarece a psicóloga. 

Dialogar sobre o tema é essencial

A informação cria segurança, além de abrir portas para uma série de ações e possibilidades de prevenção. Com a existência de canais abertos para discutir sobre o suicídio, a população aprende como identificar situações e sabe a maneira correta de agir. “A implantação de políticas públicas efetivas é capaz de melhorar a compreensão das nossas vivências”, ilustra Celene Lobato. Assim, as pessoas estarão preparadas para enfrentar e conviver com as situações da vida de uma forma mais saudável. 

Saúde mental no contexto da pandemia

O suicídio é um tema que, apesar de complicado, deve ser discutido o tempo todo, não apenas durante o mês de setembro. “O ato ocorria antes do coronavírus e seguiu acontecendo. A diferença é que agora, no contexto da pandemia, as pessoas estão mais sensíveis diante do medo causado pelas incertezas desse período”, exemplifica a psicóloga. “Estar enclausurado com esses sentimentos, sem poder ver os filhos, avós ou outros entes queridos, resulta em danos psicológicos. As pessoas estiveram sem receber e oferecer carinho aos familiares, sem dividir dores, o que pode acarretar ou agravar problemas mentais já existentes”, acrescenta.  

Segundo a psicóloga Lobato, o contexto da quarentena torna-se menos incômodo quando o indivíduo está em isolamento com pessoas queridas. Infelizmente, quando estamos sozinhos em momentos como esse, ou acompanhados de certos desafetos, tudo fica muito mais árduo. “Mesmo que o sujeito esteja com familiares, não estão presentes todos os integrantes da família e a saudade acaba ocasionando emoções que serão vividas de formas diferentes por cada pessoa”, descreve a profissional. Por isso, o ideal seria que todos tivessem suporte psicológico para trabalhar os sentimentos e aspectos emocionais que foram exacerbados pela pandemia. 

Impactos mais evidentes

“Nos consultórios, quando estou realizando atendimentos psicológicos, os impactos que mais tenho percebido nos pacientes são aqueles causados pelo medo”, declara Lobato. A pandemia trouxe o medo da própria morte, medo de perder um ente querido, medo de ser demitido e o medo diante do futuro, que, somados com a quebra de rotina e o isolamento social, são capazes de acarretar em depressão, síndrome do pânico, abuso de substâncias, entre vários outros transtornos.

Além disso, Celene reconhece que também vem observando casos de indivíduos já com alguns problemas, que ainda não estavam evidenciados, mas foram trazidos à tona pela onda de sentimentos desse momento. “O contexto da pandemia acabou funcionando como estopim para coisas que estavam guardadas no fundo, sendo ignoradas por essas pessoas e, como consequência, sem receber tratamento”, afirma Lobato. 

Daqui para frente

Para assimilar formas de conviver com essa nova realidade, Lobato explica que a melhor saída é sempre a informação consciente e esclarecedora. “Aumentar as discussões sobre suicídio e sobre a parte emocional do homem seria o primeiro passo. Abrir espaço para dividir as dores, escutar e acolher o outro faz o sofrimento tornar-se menos intenso. O trabalho psicológico possibilita isso, tanto a nível individual quanto grupal”, fundamenta a psicóloga.  

Entretanto, o apoio psicológico qualificado não está disponível para todos. De acordo com Celena Lobato, a verdadeira qualidade de vida procede de um sistema de saúde que ofereça suporte para toda a população, disponibilizando opções para lidar com a situação de uma forma mais saudável. “O homem é um ser físico, emocional, social e cultural que precisa ser trabalhado como um um todo”, reitera a psicóloga.

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