O atual Presidente-Executivo da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), Sérgio Mena Barreto, atua à frente da entidade há mais de 13 anos, tarefa que o empresário concilia com a direção da MB&A, empresa de consultoria da qual é proprietário. Mena também trabalhou por mais de uma década como Diretor de Operações, Marketing & Estratégia da rede varejista Pague Menos. Durante seus 25 anos de carreira, Sérgio Mena soma três premiações (nos anos de 2007, 2008 e 2010), pelo título de Líder Empresarial do Fórum de Líderes no segmento de Saúde. A experiência adquirida durante sua extensa jornada profissional tornou-o um dos grandes especialistas do país em estratégias varejistas no segmento farmacêutico. 

Este ano, a pandemia causada pelo novo coronavírus afetou diretamente o cotidiano de todos. As empresas farmacêuticas vêm sentindo ainda mais intensamente os efeitos da realidade atual, desde o preparo necessário para continuar atendendo a população, até o apoio crucial das farmácias na campanha “Sinal vermelho contra a violência doméstica”. Diante deste cenário, Sérgio Mena comenta a seguir acerca dos recursos empregados para proporcionar as melhores soluções ao setor. 

AH | Quais foram os impactos mais significativos da pandemia no mercado farmacêutico?

Sérgio Mena | Num primeiro momento, tivemos uma verdadeira corrida às farmácias. Quando chegaram as primeiras notícias da Europa, principalmente da Itália, onde o segmento da população mais impactado foi o de idosos com comorbidades, instalou-se aqui o caos: usuários crônicos que abandonam o tratamento resolveram retomá-lo de última hora, muitos tiveram a ideia de reabastecer a farmacinha de casa e outros resolveram suplementar e prevenir, tudo o que não fizeram em anos. Depois chegaram as notícias de possíveis tratamentos com drogas antigas e já estabilizadas no mercado.

O resultado dessas duas ondas foram prateleiras quase vazias em muitos lugares, uma verdadeira guerra de supply chain. Depois, com o isolamento social, a situação foi se acalmando e a desordenada busca de março levou a um fosso em abril. Hoje em dia o movimento se estabilizou, as pessoas estão mais conscientes, inclusive com a própria saúde.

AH | De que forma esses impactos foram sentidos?

SG | Para as grandes redes, os desafios foram muitos. Variou desde a alocação de uma quantidade enorme de profissionais de administração em regime de home office em poucos dias, até a renegociação de suprimentos com os parceiros, de modo a evitar rupturas no ponto-de-venda. Protocolos também tiveram de ser pensados para garantir proteção e baixo afastamento de pessoal.

Fomos os primeiros de todos os setores a implantar práticas como, por exemplo, medir a temperatura corporal das equipes, garantir distanciamento seguro e muitas outras que depois vieram a ser adotadas pelos governos e outros setores da economia. Nosso primeiro protocolo próprio saiu em seguida ao do Ministério da Saúde e é seguido até hoje.

“De repente, o setor se viu refém de inúmeros mitos ideológicos e burocráticos sem sentido”

AH | Houve pontos positivos para o setor? Quais?

SG | Avançamos em muitos pontos. De repente, o setor se viu refém de inúmeros mitos ideológicos e burocráticos sem sentido. Por que um paciente do programa farmácia popular só pode retirar medicamentos para 30 dias? Por que não se pode fazer entrega em domicílio de medicamento controlado? Por que não se pode dispensar medicamentos em telemedicina? Por que não usar a própria telemedicina, um sistema disponível há anos em muitos países? Essas perguntas tiveram de ser respondidas de forma rápida, e temos que refletir sobre isso, como um legado para o período de pós-pandemia!

Por outro lado, as farmácias estão na linha de frente no combate à Covid-19, notadamente aquelas que vão além da simples venda de produtos. Os estabelecimentos que implantaram serviços farmacêuticos, que se estruturaram para atender à população de forma mais completa, hoje veem seu esforço ser recompensado. Nunca essa farmácia mais completa esteve tão em evidência quanto agora.

AH | Como a Abrafarma e os locais cadastrados estão se organizando para colocar em prática a campanha “Sinal vermelho contra a violência doméstica”?

SG | Fomos convidados pela AMB e CNJ para construir esse projeto e trazê-lo para o Brasil. Esse modelo já funcionou em outros países e fizemos uma tropicalização. O grande desafio foi envolver todo o sistema policial, o 190, criando protocolos específicos para agilizar e priorizar o atendimento. Depois veio o treinamento das pessoas. Não foi fácil convencer e disseminar as informações em tão pouco tempo!

AH | A escolha das farmácias para participar dessa campanha é um sinal de reconhecimento e credibilidade do setor?

SG | Para mim, é sinal de que a farmácia é um dos locais de maior credibilidade e mais bem vistos pela população. É a prova prática de tudo aquilo que percebíamos nas pesquisas qualitativas realizadas nos últimos anos. Sim, a farmácia pode fazer muito mais do que vinha fazendo até dez anos atrás. Além de assumir uma posição de protagonismo, uma porta de entrada amigável do sistema de saúde, é também um local que acolhe pessoas em risco de vida!

Na primeira reunião que tive com a associação dos magistrados do Brasil e conselheiras do Conselheiro Nacional de Justiça, propus uma métrica simples: se com a campanha sinal vermelho nós salvássemos apenas uma única mulher, por mim tudo já teria valido à pena. Pois agora posso dizer que já salvamos muitas e muitas! Há casos de mulheres que fugiram de casa, cheias de hematomas, e foram parar no balcão da farmácia sem nenhum documento, bolsa, nada além da própria roupa do corpo. Lojas nossas chegaram a acolher três casos em uma semana! Isso é algo tão maravilhoso, que me enche os olhos de lágrimas. Pra mim, é um orgulho ser CEO da Abrafarma nesse momento. Agradeço aos céus todos os dias por essa oportunidade e pelos aprendizados que temos tido nesses momentos tão difíceis pelos quais estamos passando.

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