Karoshi: morte por excesso de trabalho

Cultura de trabalho japonesa leva funcionários ao limite físico e mental

O termo japonês “karoshi” (過労死) significa, em tradução literal, “morte por trabalho excessivo” e foi criado na década de 70 com o registro do primeiro caso. Estão inclusos na categoria os óbitos por ataque cardíaco ou derrame, causados pelo estresse desmedido, longos períodos de jejum e privação de sono para executar as obrigações designadas, assim como suicídio decorrente do excesso de atividades (que também é conhecido como “karojisatsu”).  

O problema social é legalmente reconhecido pelo governo e a família do trabalhador pode reivindicar uma compensação. São milhares de casos anuais relacionados a karoshi no país. Porém, a maior parte não é reportada e a realidade pode ser até dez vezes maior que os números oficiais. No Japão, 1 em cada 5 funcionários convive com os riscos de morrer por excesso de trabalho crônico.  

Cultura de trabalho no Japão

Grande parte da população japonesa relaciona o sucesso profissional com a obrigação de constantemente exibir aos superiores um imenso comprometimento. Nas empresas, os sacrifícios pessoais são vistos como uma virtude. Não é incomum os funcionários abdicarem de seus fins de semana e até mesmo das férias. A cultura coletivista vivenciada no país faz com que os trabalhadores tenham receio de aceitar suas folgas e acabar prejudicando o desempenho do grupo.

As consequências dessa cultura de trabalho incluem uma porção absurda de empregados sendo coagidos aos limites físicos e mentais repetidas vezes. Trata-se de uma realidade que atinge todas as categorias de profissionais japoneses, sejam eles advogados, vendedores, motoristas ou médicos. O país tem uma das jornadas de trabalho mais longas do mundo e a maior parte das horas extras não são pagas. Jornadas de 80-90 horas semanais são comuns no Japão.

Allegra Pacheco

Há alguns anos, o governo japonês propôs, pela primeira vez, limitar o número de jornadas extras para até 100 horas mensais após um crescente número de mortes por excesso de trabalho. Mais de 80 horas extras de trabalho por mês já são o suficiente para causar efeitos adversos na saúde, de acordo com o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês, sendo considerado o “limite karoshi”. Um detalhe importante: a maioria das estatísticas sobre horas extras no país não são confiáveis, já que várias empresas estão acostumadas a fraudar esses registros. 

Entretanto, a produtividade dos trabalhadores japoneses encontra-se abaixo dos funcionários europeus e norte americanos, mesmo com o número absurdo de horas extras. Devido a exaustão dos trabalhadores, os serviços realizados são habitualmente marcados por erros. Ainda assim, muitos perpetuam o discurso de que morrer em prol do trabalho é algo nobre. 

Burakku kigyo: as corporações do mal 

Empresas conhecidas por perpetuar a cultura de bullying, abuso e não pagamento de horas extras são chamadas pelos japoneses de “burakku kigyo” (empresas negras ou corporações do mal). Normalmente, essas companhias exigem devoção integral dos funcionários sem oferecer nada em troca. As burakku kigyo são consideradas fatores determinantes nos casos de karoshi

Allegra Pacheco

Corporações dessa categoria contam com o apoio do governo, que se recusa a aprovar leis mais restritivas em relação aos direitos trabalhistas. Se nas décadas passadas o problema foi ignorado em prol do crescimento econômico, agora esses sacrifícios são considerados necessários para manter a estabilidade da economia.

Salaryman 

Os salaryman são funcionários definidos pela lealdade à empresa onde trabalham, geralmente passando toda a vida profissional atuando no mesmo estabelecimento. Além das intensas jornadas de trabalho, a participação deles em atividades sociais após esse horário é exigida. A exaustão ao qual esses trabalhadores são levados resulta em cenas frequentes de homens bem vestidos caindo no sono em qualquer parte da cidade. Às vezes, completamente bêbados, já que o consumo de bebidas alcoólicas acaba tornando-se uma forma de tentar lidar com a pressão.

Casos que marcaram o país

Nos últimos anos, duas mulheres vítimas de karoshi viraram notícia no Japão. No dia 25 de dezembro de 2015, Matsuri Takahashi, uma jovem de 24 anos que trabalhava para a Dentsu, famosa empresa de publicidade, cometeu suicídio pulando do prédio onde a companhia funciona. O diagnóstico pós morte concluiu que tratou-se de um suicídio induzido por depressão causada pelo excesso de trabalho. Momentos antes de se jogar, Takahashi publicou na rede social Twitter que estava “física e mentalmente destruída” e “queria apenas morrer”.

A jovem era recém formada e estava trabalhando na agência de publicidade há aproximadamente 9 meses. Dentsu foi processada por obrigar Matsuri Takahashi a trabalhar mais de 100 horas extras por mês. Segundo os advogados da família, ela trabalhava por volta de 70 a 130 horas a mais mensalmente e conseguia dormir apenas 10 horas por semana. Agora, as luzes do local são desligadas pontualmente às 10 da noite para que nenhum funcionário continue trabalhando além desse horário. 

Alguns anos antes, em julho de 2013, Miwa Sado morreu de insuficiência cardíaca (seu coração estava tão fraco que não conseguia bombear sangue pelo corpo) com o telefone de trabalho na mão. O falecimento da jornalista foi confirmado como um caso de karoshi pelo canal de notícias NHK, onde ela trabalhava em Tóquio, somente quatro anos depois do ocorrido. No mês que antecedeu sua morte, a repórter de 31 anos trabalhou 159 horas extras com apenas dois dias tirados para descanso (e 147 horas extras no mês anterior). 

Jornada de trabalho em outros países

A morte por excesso de trabalho crônico não é exclusividade do Japão. Outros países possuem até mesmo termos próprios para o fenômeno, como a Coreia do Sul (Gwarosa) e a China (Guolaosi). O mais próximo que temos de algo assim no ocidente é a síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento social, identificada como picos de estresse, exaustão e ansiedade causados pelo excesso de trabalho. 

Em contrapartida, o governo de diversos países segue priorizando a qualidade de vida e saúde mental dos trabalhadores. No ano de 2018, a população alemã ganhou o direito de trabalhar até 28 horas semanais. A Alemanha continua sendo uma das nações mais produtivas do mundo.

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