Coronavírus: produção de anticorpos pode ser maior e durar mais do que o imaginado

Cientistas acreditam que resposta de linfócitos T significa imunidade a longo prazo

A pandemia causada pelo novo coronavírus já soma mais de 600 mil vítimas fatais confirmadas mundialmente e continua cercada de perguntas sem respostas. Grande parte dos questionamentos estão relacionados com a imunidade dos recuperados: ainda não é possível afirmar se a imunização é efetiva, se dura apenas um determinado período ou nem sequer permanece. Em alguns casos, indivíduos que tiveram a infecção por SARS-CoV-2 verificada, não conseguiram detectar anticorpos durante o teste sorológico. 

No momento, os testes para identificar a presença de anticorpos contra o coronavírus buscam detectar a presenças dos anticorpos IgM e IgG (apenas dois entre os cinco produzidos pelo organismo, que incluem: lgA, IgE e IgD). Entretanto, os níveis de anticorpos contra o coronavírus parecem diminuir mais rapidamente que os linfócitos T (ou células T), um outro tipo de proteção que pode ser proporcionada pelo nosso corpo, sendo ainda mais durável.

Um estudo recente identificou que as células T são capazes de reconhecer parte da estrutura presente no novo coronavírus. A memória de células T induzida por patógenos anteriores pode moldar a vulnerabilidade do organismo e a potência clínica (reações do corpo) de uma infecção subsequente. Porém, elas são bem mais difíceis de serem detectadas, já que, diferentemente dos anticorpos, a maioria não permanece na corrente sanguínea.

Anticorpos e linfócitos

Anticorpos são a resposta protetiva do nosso organismo para qualquer antígenos (partículas estranhas), a principal função deles é garantir a defesa do organismo. Por estarem majoritariamente presentes no sangue, acabam sendo mais fáceis de serem detectados. A produção dos anticorpos é feita por células do sistema imune, conhecidas como linfócitos B. Contudo, o sistema imune vai bem além dos anticorpos. 

Exercendo uma função essencial na defesa do organismo estão os linfócitos, um tipo de leucócitos presentes no sangue que podem ser classificados em três grupos: os linfócitos B (que realizam a produção de anticorpos), linfócitos T e Linfócitos NK. Os linfócitos T (responsáveis pela resposta imune ao coronavírus) são mediadores da defesa celular, com um comportamento similar ao dos anticorpos, só que capazes de “guardar” memórias e reagir contra organismos específicos, ação resultante de um fenômeno chamado imunidade cruzada. São eles que atacam as células infectadas por parasitas, como no caso de infecção viral. 

Imunidade por linfócitos T em casos de Covid-19

Evidências indicando que a infecção pelo SARS-CoV-2 pode gerar resposta imune relacionada aos linfócitos T foram encontradas por cientistas de diversos institutos em Singapura. Segundo a pesquisa publicada no periódico Nature, as 36 pessoas com histórico de Covid-19 que foram analisadas mostraram vestígios de linfócitos T capazes de reconhecer a composição do novo coronavírus. Todos os pacientes estudados tiveram casos de gravidade média a alta. Indicando que o corpo conseguiria combater o vírus em caso de uma eventual reincidência.

Além disso, a pesquisa também observou que 23 indivíduos recuperados do surto de síndrome respiratória aguda grave (SARS), iniciado na China em 2003, ainda dispõem de células T com memória duradoura reativa, não só ao vírus (mais de 17 anos depois), como também ao SARS-CoV-2. Isto significa que a resposta contra um vírus pode ser eficaz contra o outro, e, mesmo que ocorra uma outra infecção, os efeitos podem ser mais escassos. Ademais, entende-se da mesma forma que a imunidade desenvolvida tem duração de longo prazo.

O último grupo estudado pelos cientistas estava composto por 37 pessoas que não foram diagnosticadas com o SARS e nem com o SARS-CoV-2. Surpreendentemente, 19 delas tiveram resposta positiva das células T para estruturas presentes em ambos os vírus, mas com um padrão diferente de imunodominância. Acredita-se que o motivo está relacionado com uma possível “recordação” das infecções por outros tipos de coronavírus, frequentemente confundidos com um resfriado comum.

Imunidade em pacientes que não apresentam anticorpos nos testes sorológicos 

Um outro estudo realizado pelo Instituto Karolinska, na Suécia, também reitera a possibilidade de que a infecção pelo novo coronavírus ocasione imunidade aos pacientes que receberam resultado negativo para anticorpos nos testes sorológicos (de sangue). A presença de linfócitos T com resposta imune ao vírus nos pacientes com sintomas leves ou assintomáticos indica que a imunidade populacional pode ser maior e durar mais que o previsto. 

Demanda de estudos futuros e mais aprofundados

Os resultados da pesquisa feita pelos cientistas de Singapura são extremamente positivos, ainda que o grupo de pessoas analisadas seja incontestavelmente pequeno. Outra ressalva é o fato de que a resposta imunológica não garante uma ausência de sintomas. O estudo suíço ainda está aguardando a revisão de pares (quando um trabalho científico é revisado por especialistas da área). 

Na opinião dos cientistas, é extremamente importante compreender os impactos na população mundial causados pela capacidade de resposta imune das células T diante de partes estruturais do SARS-CoV-2. Infelizmente, os exames para detectar os linfócitos T são muito caros e complexos.

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