Autor da pesquisa que acertou o pico da pandemia no Pará especula sobre os próximos meses

Projeto elabora semanalmente um boletim divulgando as previsões da Covid-19 no território paraense

Foto: Ricardo Amanajás / Ag Pará.

No mês de fevereiro deste ano, um projeto de pesquisa nasceu com o objetivo de analisar o fenômeno epidemiológico da Covid-19 no território paraense. Logo, o grupo de pesquisadores decidiu analisar os dados e utilizar as informações encontradas para produzir semanalmente um boletim divulgando as previsões para os 7 dias adiante, batizado de Boletim Covid-19: Projeções e Recomendações para o estado do Pará. Em abril, a iniciativa publicou um artigo com previsões acerca da doença para o estado do Pará no periódico científico internacional Journal of Development Research

“Estas previsões têm sido uma ferramenta de apoio à tomada de decisão por parte do poder público, pois permite que seja dada uma resposta em tempo hábil às necessidades do estado”, informa o Pró-Reitor Adjunto de Extensão da UFRA e integrante do projeto, Jonas Castro. Os boletins vêm mantendo uma acurácia significativa: a precisão de acertos está acima de 97%.

O estudo foi realizado pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), com a colaboração de pesquisadores da UFPA, UEPA, UFPR e UFV. A equipe concebida é multidisciplinar e interinstitucional, composta de especialistas em virologia, infectologia, inteligência computacional, genética e biologia molecular.

“Embora a UFRA tenha sido a instituição que tomou a iniciativa de realizar o estudo, a UFOPA oficialmente participa e assina o trabalho. Além disso, diversos pesquisadores da UFPA colaboram diretamente nas análises, discussões e produção dos dados gerados pelo boletim”, clarifica o pesquisador. “Além destes, temos a colaboração direta de pesquisadores da UFV e UFPR, bem como profissionais de saúde de outras instituições, como a UEPA, por exemplo”, acrescenta.

Futuro da Covid-19 no Pará

Os prognósticos para o estado do Pará continuam com tendência de estabilidade no número de casos acumulados e de queda no número diário de óbitos. Embora algumas regiões de saúde do estado, como a do Araguaia, estejam com índices alto e tendência de crescimento de casos, o resto do estado já está com a situação estabilizada. “Mesmo que a região do Araguaia tenha tendência de aumento dos casos, a situação de leitos de UTI para lá não está sobrecarregada”, esclarece Jonas.

No momento, o estado do Pará acumula 196.874 casos confirmados e 6.106 óbitos por Covid-19, segundo o portal de monitoramento disponibilizado pelo governo. Recentemente, a média brasileira de infectados pelo novo coronavírus baixou para 900 casos confirmados por dia, número de registros que não ocorria desde o final de maio. Ainda em abril, o grupo de pesquisadores responsáveis pelas previsões na região paraense projetou, corretamente, que o pico da doença no território iria ocorrer no mês de maio.  

Metodologia do estudo

As previsões reportadas no Boletim Covid-19 Pará são feitas com o uso de inteligência computacional, a partir dos dados oficiais fornecidos pelo governo do Estado. A técnica é chamada de Redes Neurais Artificiais, sendo capaz de estabelecer previsões de curto prazo quanto ao número de casos acumulados, óbitos acumulados, casos confirmados em 24h e óbitos confirmados em 24h, além de projeções sobre a demanda de recursos hospitalares (leitos de UTI, leitos clínicos, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e técnicos de enfermagem).

O método usado consegue modelar fenômenos presentes por meio das informações passadas para tentar estimar o comportamento futuro, sendo amplamente utilizado em previsões epidemiológicas no mundo todo. A projeção de tendências é, então, feita a partir da série histórica dos dados que, se processados em tempo hábil, podem prover informações relevantes e auxiliar a tomada de decisão do poder público, bem como ajudar na alocação eficiente de recursos. “Os boletins trazem estas previsões para as 13 regiões de saúde do estado e para 40 municípios, dentro de um período de 14 dias a frente”, explica o professor Jonas Castro. 

Aplicabilidade dos boletins semanais

O objetivo do Boletim Covid-19 PA é oferecer indicadores numéricos para auxiliar de maneira técnica na construção de decisões por parte do poder público, seja em nível estadual ou municipal. Perante os dados obtidos e com outras informações disponíveis, espera-se que as autoridades possam avaliar e tomar as medidas necessárias para amenizar os efeitos da pandemia. 

“Na prática, isso tem acontecido e ficamos muito satisfeitos em ver a universidade pública servindo a sociedade de forma relevante, participando efetivamente da melhoria do seu entorno e não apenas entretida dentro de seus muros”, revela o pesquisador.

Desde o primeiro momento em que os boletins passaram a dar suporte no processo de tomada de decisões do poder público no enfrentamento da pandemia, houve uma maior agilidade, por exemplo, na realocação de recursos hospitalares (tal como os leitos de UTI) entre diferentes regiões de saúde do estado. Como resultado, locais onde a tendência era de alta nos casos e mortes, puderam receber antecipadamente mais recursos oriundos de regiões que tinham a tendência de melhoria nos índices da doença. Tudo isso foi desenrolado a partir dos dados projetados pelos boletins. 

“Efetivamente, vidas foram salvas por este estudo. Se as autoridades competentes podem saber com uma ou duas semanas de antecipação como estará a pandemia em determinada região ou município, fica muito mais fácil para administrar recursos e tomar decisões”, conclui o coordenador do projeto.

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