Bruno Rocha /Fotoarena

Os dados coletados pelos sistemas de monitoramento da Amazônia estimam que as queimadas em território amazônico neste ano irão apresentar os piores registros desde 1998, época em que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) iniciou as atividades de monitoramento. A Amazônia abriga aproximadamente 3 milhões de espécies diferentes entre fauna e flora. Neste cenário, toda a biodiversidade local está ameaçada.

Entretanto, dentre os nove estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Rondônia, Roraima, Pará, Maranhão, Amapá, Tocantins e Mato Grosso), seis tiveram redução no número de multas acerca da fauna realizadas pelo IBAMA, apesar de seis deles terem revelado aumento no desmatamento. 

Fiscalização das queimadas

O Inpe, componente do Ministério da Ciência e Tecnologia, em cooperação com o Ministério do Meio Ambiente, monitora os níveis de desmatamento no país utilizando satélites. Essa vigilância tem como proposito o controle e o combate dos desmatamentos ilegais, além de servir como base para o desenvolvimento e avaliação de políticas públicas a fim de preservar o meio-ambiente. 

As informações são respaldadas por dois sistemas de monitoramento via satélite. Um deles é o Programa de Desmatamento da Amazônia (PRODES), existente desde 1988, que identifica focos de desmatamento e produz taxas anuais com os dados constatados. O segundo trata-se do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), efetivo desde 2004, que mapeia com agilidade as áreas de alerta e permite ações rápidas de controle. 

Foto: Sérgio Vale/Amazônia Real

As queimadas de grandes extensões territoriais são capazes de provocar mudanças climáticas e prejudicar profundamente a biodiversidade do local, além de outras inúmeras consequências. Ainda assim, a maior parte dos incêndios são causados para que determinada área florestal seja liberada para a agropecuária ou especulação imobiliária. 

Apenas em 2020, entre os meses de janeiro a setembro, a Amazônia registrou mais de 69,5 mil focos de calor (como os incêndios são representados). Nestes primeiros 20 dias de setembro, o número dos pontos de calor observados já é 34% maior do que foi registrado durante o mesmo mês no ano passado (26.656 registros em 2020, contra 19.925 em 2019). 

Problemas de monitoramento

O satélite utilizado atualmente como referência pelo Inpe, chamado AQUA_M-T, foi lançado em 2002 e deveria ter sido substituído há 12 anos atrás, em 2008. A vida útil do satélite é de 8 anos e o próprio instituto afirma que o período limite de operação do Aqua já foi ultrapassado. O Aqua é um satélite americano, desenvolvido com apoio do Japão e do Brasil, que possui seis instrumentos sensoriais instalados.

Um deles é o sensor MODIS, responsável por mapear e monitorar a cobertura vegetal do planeta Terra. O MODIS consegue cobrir dezenas de bandas espectrais simultaneamente e as suas imagens possuem resolução espacial de até 250m. Contudo, o instrumento vem registrando números muito abaixo que os outros satélites de monitoramento.

Pantanal também está queimando 

Durante este ano, o Pantanal também vem passando pela maior quantidade de queimadas registradas no mês de setembro desde que Inpe passou a monitorar o território, em 2007. Durante setembro de 2019, o Pantanal registrou 2.887 focos de incêndio, contra 5.603 focos apenas nos primeiros 16 dias. As queimadas na região, que representa a maior área inundável do mundo, já consumiram quase 3 milhões de hectares.

Bruna Obadowski/A Lente

Na semana passada, as queimadas que atingiram regiões de fronteiras com o Brasil, fez o governo da Bolívia decretar estado emergencial. A área em chamas tem aproximadamente meio milhão de hectares e está próxima aos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O decreto regulamentado pela presidente interina boliviana, Jeanine Áñez, abre a possibilidade de ajuda internacional na luta contra os focos de incêndio. 

Uma equipe de trabalho brasileira, composta por organizações não-governamentais, órgãos públicos e voluntários, agora luta para calcular o número aproximado de animais mortos, realizando ações em campo nos dois estados. O trabalho está previsto para durar conforme os incêndios forem ocorrendo e as informações coletadas serão base de dados para trabalhos científicos, assim como informar a população sobre a dimensão dos estragos causados pelo fogo na fauna do Pantanal. 

Número de multas aplicadas pelo IBAMA segue reduzindo

As multas impostas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) para quem comete infrações relacionadas a crimes ambientais, tanto no Pantanal quanto na Amazônia, caíram consideravelmente no último ano.  De acordo com dados divulgados pela Agência Pública, as multas de 2019 relacionadas à biodiversidade do Pantanal tiveram uma redução de 71%, em comparação com o ano passado.  

Na Amazônia, as multas diminuíram até mesmo nos locais onde houve crescimento do desmatamento. Entre janeiro e julho deste ano, o IBAMA realizou 40% menos multas do que no mesmo período em 2019. Trata-se da menor quantidade de multas por crimes contra a flora amazônica nos últimos dez anos. No Pará, estado com maior queda nas penalidades, 52 municípios apresentaram diminuição no número de multas, mesmo que 51 deles tenham registrado aumento no desmatamento.

Fumaça alcançando outros países

Neste sábado (19), o Inep divulgou imagens de satélite mostrando que, a fumaça provocada pelos incêndios na Amazônia e no Pantanal, estende-se por mais de 4 mil quilômetros, chegando a atingir pelo menos 5 países que fazem fronteira com o Brasil. Além de espalhar poluição para o Sul do país, os ventos cobriram parte do Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai com uma nuvem cinza. 

Foto: Inpe/Reprodução

Impactos na saúde da população

A fumaça gerada pelos focos de incêndio contém monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio e material particulado (PM2.5), que, em casos de longa exposição, afetam intensamente o sistema respiratório dos indivíduos expostos a esse ar. Além dos problemas respiratórios, a inalação prolongada de ar contaminado pode acarretar no desenvolvimento de doenças cardíacas, já que as substâncias são capazes de entrar na corrente sanguínea e se espalhar pelo corpo todo. 

Em Santa Catarina, diversos municípios já estão registrando casos de chuva contaminada com partículas de fumaça que podem conter compostos químicos devido aos incêndios no Pantanal. As chuvas também ocorreram no estado do Rio Grande do Sul e podem surgir em São Paulo, que já observou a presença de fumaça proveniente dos incêndios.

Resposta internacional

Diversos representantes políticos europeus enviaram, na última quarta-feira (16), uma carta ao vice-presidente Hamilton Mourão, cobrando ações estratégicas para reduzir o desmatamento. De acordo com embaixadores de oito países (Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Itália, Holanda, Noruega e Reino Unido), o desmatamento prejudica a compra de artigos brasileiros, por isso, é necessário cobrar do Brasil medidas coerentes de combate. 

Diante disso, a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que propõe uma relação de livre-comércio entre os blocos, fica ainda mais improvável diante do descaso com a proteção ambiental exibido pelo governo brasileiro. Dentre outros obstáculos, sociais e econômicos, a reprovação pela falta de ações consistentes contra o desmatamento no Brasil tem sido o mais recorrente. 

Em junho deste ano, inúmeras organizações ambientais e outras instituições entraram com um pedido de suspensão ao acordo, alegando que os impactos ao meio-ambiente e ao clima não foram levados em consideração. Da mesma forma, os governos da Áustria, Holanda e França já manifestaram oposição ao texto atual do acordo.

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